sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Beata Maria Ludovica de Angelis, religiosa - 25 fevereiro

     
      A Irmã Maria Ludovica De Angelis nasceu no dia 24 de outubro de 1880 na Itália, em São Gregório, uma pequena cidade dos Abruzzos, não muito longe da bonita cidade de L'Áquila. Foi batizada na mesma tarde do seu nascimento com o nome de Antonina. Seus pais, humildes lavradores, se chamavam Santa Colaiandi e Ludovico de Angelis. Ela era a primogênita e teve que ajudar na educação dos irmãos. Frequentava esporadicamente a escola onde aprendeu a ler e escrever. Quando chegou à adolescência teve que ajudar seu pai nas tarefas agrícolas.
     No contato com a natureza e a dura vida do campo, a menina cresceu límpida e simples, trabalhadeira e rica de sensibilidade, transformou-se ao mesmo tempo numa jovem forte e delicada, ativa e reservada como todas as pessoas daquela esplêndida terra. Seu pároco, Pe. Samuel Tarquini, colocou-a na frente da Associação Filhas de Maria fundada por ele.
     No dia 7 de dezembro do mesmo ano do nascimento de Antonina falecia em Savona uma Irmã que havia escolhido dar a vida à Cristo: era a Santa Maria Josefa Rossello, que havia fundado em Savona, no ano de 1837, ao Instituto das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia, uma família religiosa que se espalhava pelo mundo e atraia muitas jovens para o mesmo ideal.
     Antonina sentia que os seus sonhos encontravam eco nos sonhos da Madre Rossello, o que a levou a ingressar naquela Congregação no dia 14 de novembro de 1904, ajudada economicamente pelo Pe. Tarquini, já que sua família era contra sua vocação. Em 3 de maio de 1905 pôde vestir o anelado hábito. Na cerimônia da vestição ela recebeu o nome de Irmã Maria Ludovica. Começou então seu noviciado. Em 3 de maio de 1906 consagrou-se a Deus, fazendo votos de pobreza, castidade e obediência. Seus pais não estiveram presentes na cerimônia; ela partilhou sua alegria com o Pe. Samuel, que comprou seu hábito.
     Em 14 de novembro de 1907, junto com quatro religiosas, embarcou para a Argentina. Quando chegaram a Buenos Aires, no dia 4 de dezembro, se dirigiram à Casa Provincial. No início de 1908 recebeu a ordem de dirigir-se ao Hospital de Niños de La Plata. Este hospital era muito pequeno, somente um terreno cercado por arame, um portão e duas salas de madeira, baixas e pequenas para sessenta camas. A cidade, fundada em 1882, tinha nessa época 26 anos, ou seja, dois anos menos que Irmã Ludovica.
     Irmã Ludovica não possuía uma grande cultura, ao contrário, mas é admirável o que conseguiu realizar sob o olhar admirados daqueles que a rodeavam. Se seu castelhano é simpaticamente italianizado, não tem muita dificuldade em entender e se fazer compreendida.
     Foi encarregada da cozinha e da despensa. Em 1909, ao ver sua grande responsabilidade o Dr. Cometto a recomendou como administradora, cargo que desempenhou até sua morte em 1962.
     Segundo algumas testemunhas, lutou e conseguiu tirar do hospital toda a frieza dos hospitais clássicos, e foi a conselheira, diretora espiritual dos empregados e das famílias das crianças internadas, aprendendo e praticando todos os afazeres que são próprios de uma enfermeira.
     Ela se tornou não só uma grande colaboradora dos médicos, como também fazia as tarefas mais humildes. Por causa de sua intuição e sua experiência percebia todos os problemas dos enfermos e os médicos confiavam muito nela e nas suas observações.
    Em 3 de maio de 1911, professou seus votos perpétuos. Ao morrer a Superiora do hospital em 1915, o Dr. Cometto, junto com outros médicos, pediu à Madre Provincial que nomeasse Irmã Ludovica, porque todo o pessoal admirava seus dotes especiais de prudência, previsão e capacidade para dirigir. A Madre aceitou a proposta, mas tiveram que convencer Irmã Ludovica para que aceitasse o cargo já que esta alegava incompetência.
     Irmã Ludovica não formulava programas e estratégias, mas doava-se com toda a alma. Serena, ativa, audaz nas iniciativas, forte nas provas e nas doenças, com o inseparável Terço nas mãos, o olhar e o coração em Deus, e o sorriso nos olhos, Irmã Ludovica tornou-se, sem ela mesma o saber, por meio de sua bondade sem limites, incansável instrumento de misericórdia para que a mensagem do amor de Deus chegasse a cada um dos seus filhos.
    Quando assumiu o cargo, começou uma progressiva ampliação do prédio que pertencia à Sociedade de Beneficência. Para atingir esse objetivo, teve que pedir ajuda aos platenses. Começou assim essa enorme construção que acabaria somente com sua morte. Em 1925 passou a pertencer ao Ministério de Saúde Pública da Província. Irmã Ludovica ficou sendo o porta-voz das necessidades das crianças e das novas exigências do progresso. A Província dispôs de verba, doando quantidades anuais fixas de dinheiro para o Hospital, mas, pela capacidade da Superiora, cada doação de dinheiro que chegava se multiplicava, aumentando seu valor.
     O Hospital de Niños, graças a seu coração caridoso, atendia não somente as crianças doentes, mas também protegia aquelas crianças que os pais abandonavam quando as internavam. Ela continuava sua educação e pagava seus estudos.
    Em 1935, foi necessário extirpar o rim de Irmã Ludovica. Esta operação lhe deixou muitas sequelas, mas continuou trabalhando com muita dedicação. As Irmãs aconselharam-na a ter um período de repouso depois de trinta anos de trabalho intenso. A eleição de Madre Geral da Congregação ia começar e foi a sua oportunidade para participar como eleitora. Quando estava na Itália aproveitou para visitar laboratórios e hospitais. Graças a suas influências ela pôde trazer aparelhos e ferramentas necessárias para o hospital.
    Quando estava em Savona, ela decidiu dar um passeio pela Riviera Ligure. Lá visitou algumas casas dedicadas à convalescença das crianças muito fracas. Esta experiência a inspirou para fundar o Solário em Punta Mogotes, em Mar del Plata.


     Em 1937, junto com o diretor do hospital, Dr. Alejandro Oyuela, pediu ao Ministro de Obras Públicas a doação de um prédio em City Bell para instalar um Solário. Mas decidiu transformar essas terras numa fazenda modelo para plantar boas hortaliças e frutos abundantes, e para criação de aves e porcos. Dessa forma as crianças teriam ovos, frangos e presunto de primeira qualidade.
     Quando ela percebeu o abandono religioso dos vizinhos desse lugar, dirigiu-se ao Arcebispo de La Plata, Monsenhor Alberti, para lhe oferecer sua colaboração para organizar uma missão. A missão a cargo do Pe. Benvindo Alvarez, S.J. com ajuda das Irmãs foi um sucesso e surgiu a ideia de se construir uma capela. Toda a cidade apadrinhou esta obra e, em 1939, o novo Arcebispo Monsenhor Chimento inaugurou o templo do Sagrado Coração de Jesus.
     Durante 19 anos, a cada dois dias, ela dirigia-se à fazenda e voltava com as cestas cheias. Na época dos tomates preparava conservas para o ano todo. Quando fazia estas viagens à fazenda aproveitava para levar um grupo de crianças para compartilhar do passeio.
     Por causa da extirpação do rim, aconselharam-lhe um período de repouso em Mar del Plata. Quando ela experimentou os benefícios do mar, do ar com iodo e do sol, pensou muito que esses benefícios poderiam ser úteis para as crianças fracas, raquíticas e com problemas de ossos. Foi assim que surgiu a ideia de um solário marítimo. Foi uma luta que durou sete anos, teve muitas oposições, mas finalmente, graças a suas orações, conseguiu inaugurar o solário em 1943.
     Irmã Ludovica sabia que a saúde do espírito é muito mais benéfica que a cura das enfermidades. Por isso ela decidiu construir uma capela dedicada a São José.
    Pela sua intuição compreendeu que uma nova guerra ameaçava o mundo, e previu tudo comprando produtos medicinais, que foram úteis durante muito tempo. Sua administração era aberta e generosa. Após o sismo de San Juan, o Hospital de La Plata enviou mais soro antitetânico, antigangrenoso e antidiftérico do que a Direção Geral dos Hospitais da Província.
     Em 12 de junho de 1949, sua Madre e Fundadora, Maria Josefa Rossello, foi canonizada. Todas as Filhas da Misericórdia ficaram muito felizes, mais ainda as de La Plata, porque o primeiro milagre que ajudou à canonização aconteceu nessa cidade: Irmã Maria do Espírito Santo, que era professora do Colégio da Misericórdia, foi curada subitamente da tuberculose renal muito grave que padecia, logo que suas coirmãs rezaram e pediram à Madre Fundadora pela sua saúde.
     Irmã Maria Ludovica foi eleita entre várias delegadas, para participar da cerimônia. Ela aproveitou a viagem para estabelecer contatos com clínicas e laboratórios e trazer material sanitário.
     Nesse mesmo ano uma Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima percorreu o mundo e esteve vários dias na cidade de La Plata. O Hospital todo foi comovido pelos preparativos, pela recepção, sessões de cânticos, orações e despedidas. A Virgem percorreu todas as salas do Hospital. Nos corredores e nas salas as pessoas escutavam muitos rosários e preces. Muitas testemunhas falam da constante devoção mariana de Irmã Ludovica. Todos os anos o pessoal peregrinava ao Santuário de Nossa Senhora de Lujan e ela era sempre a animadora.
     Durante 54 anos a Irmã Maria Ludovica foi a amiga e a confidente, a conselheira e a mãe, guia e consolo para centenas e centenas de pessoas de qualquer classe social. No dia 25 de fevereiro de 1962 ela faleceu aos 82 anos, mas o pessoal médico em particular não se esqueceu e o Hospital das Crianças assumiu o nome de Hospital Superiora Ludovica.
     Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, a 3 de outubro de 2004, em Roma. Seu corpo encontra-se na Catedral de La Plata, Argentina.


Fontes: vatican.vahttp://feeds.feedburner.com/~r/aciprensa-santodeldia/~4/Sjy25v7zS9M ACIPrensa - El Santo del día; extraído de Frei Contardo Miglioranza. Derramando Amor – Tradução: Maria Antônia López

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Madre Helena Maria do Espírito Santo, fundadora – 23 de fevereiro

   
    Poucos contrastes há tão frisantes em São Paulo – onde, entretanto eles não faltam, e de toda ordem – do que entre a Avenida Tiradentes e o Convento da Luz, com o Museu de Arte Sacra, que lhe ficam exatamente à margem. Um longo muro, que toma talvez mais de meio quarteirão, separa os dois mundos. Do lado de fora, a avenida, com seu movimento emaranhado e ruidoso; muro adentro, quase a mesma atmosfera de há duzentos anos atrás: a tranquilidade, a meditação, a oração e o bom gosto ali deitaram raízes e vêm florescendo há tanto tempo, que chegaram a impregnar de uma vez para sempre a atmosfera de um aroma espiritual sutil e envolvente. [...]
    Entra-se no templo. E tudo é sorriso. Aquele sorriso leve, nobre e superiormente sério que constitui um dos encantos de nossa arte colonial. Alta cúpula, proporções graciosas, altares e imagens cheias de mimo e dignidade. A atenção se fixa, por fim, no presbitério.
     Do alto do retábulo, uma imagem da Imaculada Conceição, na penumbra, faz descer de seu nicho sucessivos e ininterruptos eflúvios de meiguice materna, condescendência e esperança de socorro.
     Um pouco aquém um tabernáculo, de linhas imponentes como se fora um palácio luisquatorzeano. No chão, uma lápide de mármore assinala dormir ali seu repouso final Santo Antônio de Sant’ana Galvão, o franciscano fundador da Casa. Como elogio póstumo só estas palavras simples e supremas: “animam suam in manibus suis semper tenens, placide obdormivit in Domino die 23 decembris. Anno 1822”. – Ter sempre em mãos a própria alma para a governar continuamente!... Que elogio! [...]
    Ali passam, há mais de 150 anos, sucessivas gerações de freiras Concepcionistas, apartadas das coisas do mundo, mas voltadas à oração e à expiação, para que Deus perdoe e regenere este mesmo mundo. [...]
Fundadora dessa colmeia de anjos, Madre Helena Maria do Espírito Santo
     Santo Antônio de Sant’ana Galvão, morto em São Paulo no ano de 1822, nos deixou uma “Vida de Madre Helena Maria do Espírito Santo, mestra e fundadora do Recolhimento da Luz – da cidade de São Paulo” (cf. “O Convento da Luz em São Paulo, pelo Servo de Deus Frei Antônio de Sant’Ana Galvão”. Edição do Mosteiro da Luz, 1974). Todos os fatos contidos no trabalho, conheceu-os o judicioso autor, ou por observação pessoal, ou por testemunhas de sua inteira confiança.
     A história nos faz recuar desde logo para cerca de 250 anos atrás. Ela se inicia em Apiaí, então região longínqua do sertão paulista.
     “Um homem fidedigno e bom católico, por nome Francisco de Paiva” – afirma Frei Galvão – divisou uma nuvem branca com aspecto sobrenatural, que cobria uma casa do lugar. Já era tarde da noite. E assim, no dia seguinte, foi ele indagar o que se passava. Soube então, que nascera uma filha do casal, que lhe deu o nome de Helena.
     Desde a idade da razão, deu esta prova de virtudes excepcionais. Entre estas destaco o espírito de penitência, que o santo frade, justamente maravilhado, assim descreve: “Por espaço de anos inteiros usou de cilícios sobre a carne, dormia com eles sobre a terra fria, macerando seu corpo com jejuns quase não interrompidos, rasgando suas carnes com disciplinas de ferro”. Santo Antônio Galvão, varão prodigiosamente equilibrado, e por isto mesmo muito entendido em equilíbrio, via nisto virtude.
   À tão grandes penitências correspondia Deus com graças especiais. Certa noite, Helena se embrenhara pelo mato, à procura de inteira solidão para melhor rezar. Apareceu-lhe aí o terror das selvas, uma onça pronta a devorá-la. A menina invocou com piedade o nome de Jesus, e a fera, que não temeria os homens mais bravos e bem armados, desabalou em apavorada corrida. A cena mereceria ser pintada por Fra Angélico, e oferece matéria à altura do talento de um Camões.
     Acompanhando certa ocasião seus pais nas longas caminhadas dos paulistas de então – narra ainda Frei Galvão – Helena, “indo por um caminho em que faltava água de beber, sentiu uma grande sede, e pedindo a seu Criador lhe diminuísse a sede, pois receava não ter forças para sofrê-la, foi então que lhe apareceu um mancebo muito formoso com um púcaro de água e, bebendo ela, nunca mais teve sede em toda a sua vida”. É fácil divisar nesse mancebo um Anjo do Céu, enviado para dessedentar a piedosa menina, que na ocasião tinha presumivelmente sete anos.
     Não é de admirar que, seguindo por essa senda espiritual, aos dezessete anos se apresentasse ao Recolhimento de Santa Teresa, onde se consagrou por anos inteiros, com piedade e esmero, ao ofício de servente.
     Outra visão, mais graciosa ainda que as anteriores, veio significar-lhe, entretanto, que Deus tinha sobre ela mais altos desígnios.
     Em meio às austeridades que praticava no Recolhimento de Santa Teresa, notáveis aparições favoreciam sua alma. Em uma destas, manifestou-se lhe o Senhor “como Bom Pastor, rodeado de muitas ovelhas, uma nos ombros, outras nos braços, outras procurando subir-lhe pelo corpo, e disse-lhe: ‘Eis aqui estas minhas ovelhas que procuram um aprisco (...) e não encontram, pois vós, podendo, não quereis subministrar-lhes um, fundando um convento em cumprimento de minha vontade’” (“Frei Galvão, bandeirante de Cristo” – Editora Vozes, 1954, p. 53). Com essas palavras de afetuosa intimidade, Nosso Senhor pedia à Irmã Helena que fundasse um convento. Em outros termos, pedia-lhe o impossível.
   Com efeito, desde 1764, o ímpio Marquês de Pombal, ministro do Rei D. José I, proibira a fundação de novos conventos em terras da Coroa portuguesa. 
    A quem obedecer? Ao poder civil, perseguidor do estado religioso? Ou à vontade de Deus? – Em princípio, a dúvida não era possível. Cumpria à Irmã Helena mover-se para a fundação do convento. A Providência saberia vencer os obstáculos.
     Neste sentido, a Irmã Helena, cuja sabedoria era “mais divina do que humana (ibid., p. 54) soube acionar três varões ilustres da São Paulo de então. Um era seu confessor, o franciscano Frei Antônio de Sant’ana Galvão, já então merecidamente tido em conta de santo, na cidade. O outro era o Cônego Antônio de Toledo Lara, Governador do Bispado “sede vacante”, e o terceiro o Governador da Capitania de São Paulo, o fidalgo D. Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão.
     Para fundar-se um convento contrariamente à lei vigente, era necessária expressa permissão do Rei. Pedi-la importaria em provocar uma recusa. Resolveram, então, a irmã Helena e os três egrégios personagens, que em sua correspondência com o Governo, D. Luís Antônio simplesmente noticiasse sua intenção de fundar tal convento. Se não ocorresse expressa proibição, entenderia ele – com santo ardil e coragem – que estava dada uma permissão tácita. E com isto cumpriria a vontade divina, lançando a fundação.

     De fato, o Governo não reagiu. E assim, ao romper o dia 2 de fevereiro de 1774, um séquito de altos personagens do local se deteve, no maior segredo, às portas do Recolhimento de Santa Teresa. Compunham-no o governador da Capitania, o Governador do Bispado, Frei Galvão e outras personalidades. A Regente do Recolhimento entregou as Irmãs Helena e Ana da Conceição à ilustre comitiva. As religiosas entraram em duas cadeirinhas, e lá se foi o cortejo a cavalo, até a capela da Luz, onde elas iniciaram a vida contemplativa, vindo a professar na Ordem das Concepcionistas Franciscanas: hábito azul e branco, em louvor da Imaculada Conceição.
     Na mesma Capela da Luz, instituiu o fidalgo D. Luís Antônio uma Associação de grande função social, que só se extinguiu por fins do século passado: a benemérita Irmandade da Nobreza, destinada a congregar, sob o manto da Virgem as pessoas da aristocracia paulista.
     Estava posta em terra a semente. Cumpria regá-la. E isto, em termos de Fé, só se faz pela aceitação generosa da dor.
     A pobreza se fez sentir logo: “Muitas vezes nem água para beber se tinha; andava-se mastigando alguma coisa azeda para mitigar a sede”. Havia dias que nada se tinha para comer; e dávamos graças a Deus o dia em que no jantar podia-se fazer um mingau de tapioca” (ibid., p. 74). A religiosa que conta isto acrescenta: “e ficávamos muito alegres e satisfeitas com a Divina Providência, que era toda a nossa consolação e alegria” (ibid., p. 74). Quanto às celas, eram “muito pequenas, sem soalho e sem forro e ainda poucas. Havia Irmãs que moravam em celas feitas com taquaras ou com esteiras”. Os calçados eram de panos velhos. E assim por diante.
     Queria Maria Santíssima, padroeira da nova Casa, dar-lhe uma solidez que desafiasse os séculos. Por isso, dispensou-lhe, além da pobreza, mais dois tratamentos incomparáveis para as coisas católicas verdadeiramente duráveis: uma catástrofe e um tufão. A catástrofe foi a morte de Madre Helena, ocorrida em odor de santidade a 23 de fevereiro de 1775. O tufão foi a resistência – sublime por sua energia e por sua humildade – oposta pelas freiras, a uma iníqua ordem de fechar o convento, proveniente ao mesmo tempo da Coroa e do Bispo.
     Haviam cessado em junho de 1775 as funções de capitão-general do famoso Morgado de Mateus, D. Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão. Governara este com sabedoria, firmeza e bondade a Capitania paulista. Sucedeu-lhe imediatamente nas funções Martim Lopes Lobo de Saldanha, sob cuja férula São Paulo veio a passar oito anos de despotismos e arbitrariedades.
     Executor açodado das tirânicas leis de perseguição religiosa de Pombal, Martim Lopes não tardou em oficiar ao vice-rei Marquês do Lavradio, comunicando-lhe que ordenara o fechamento do Convento da Luz, no qual viviam então dez religiosas.
    Tal ordem, o capitão-general a efetivara por meio do Bispo de São Paulo. Submisso, o Prelado mandou chamar, no dia 29 de junho, festa de São Pedro, a Frei Galvão, fundador e capelão do pequeno cenóbio, e lhe intimou a dar início imediatamente à dissolução do Convento. Tão logo recebida a ordem dada pelo Pastor – ao qual, entretanto, incumbia o dever de proteger as religiosas, mais do que o de as dispersar – Frei Galvão dirigiu-se ao mosteiro cuja Capela estava repleta de povo à espera da Missa. Celebrada esta, Frei Galvão comunicou às religiosas transidas de dor, a deliberação arbitrária que as fulminava. Que avisassem suas famílias para virem buscá-las. Dentro de um mês, o Convento teria que cerrar suas portas.
   Três religiosas saíram. As outras, porém, resolveram resistir, dentro dos limites do Direito Canônico, aos intuitos do Governador, endossados pelo Bispo. Ao pé da letra, a ordem recebida obrigava-as a fechar o Convento. Não porém a se dispersarem. Fecharam-no. Mas resolveram continuar vivendo nele clandestinamente.
     A resistência parecia absurda, pois, conhecendo-a o Governador ou o Bispo, tinham o poder – se bem que não o direito – de desferir contra as religiosas violentas penalidades canônicas e civis. Ora, como manterem-se na clausura sem receber de fora os víveres e a água potável, que as freiras tinham escassa? E como tomar contato com gente estranha ao Convento sem se exporem à delação?
     Há porém deliberações absurdas para as criaturas sem fé, e inteiramente cabíveis para aquelas cuja fé move as montanhas. As freiras resolveram enfrentar o que humanamente era impossível. Cerraram portas e janelas. E cortaram todos os contatos com o exterior.
     Consumidos os poucos mantimentos de que dispunha o Convento, as religiosas passaram a viver de umas tais ou quais ervas que possuíam no quintal. Entrementes, um pé de morangas, que no mesmo quintal se achava, produziu de modo inteiramente imprevisível uma tal quantidade de frutas, que as religiosas não conseguiam comê-las todas. Faltando a água, reuniram-se no coro em dia sereno e claro, e pediram chuva. O céu começou logo a se cobrir de nuvens. Trovejou. E uma chuva copiosa caiu, enchendo as talhas e vasilhas que as irmãs haviam exposto para recolhê-la. Repletos os recipientes, a chuva cessou.
   O céu concedeu às “resistentes” socorros ainda maiores. A alegria inundava as almas das religiosas, que nessa vida catacumbal recebiam graças assinaladas.
    Assim escoou, nessa espécie de santo “maquis”, todo o mês. E passados mais alguns dias, de repente, fortes golpes desferidos contra a porta fizeram estremecer a comunidade – Estaria tudo descoberto? Iriam ser levadas à cadeia? Puseram atenção, e conseguiram ouvir a voz de Frei Galvão, que as chamava pelos nomes. Abriram. E ele lhes comunicou, radioso, a notícia: o vice-rei, Marquês do Lavradio, cancelara a ordem do fechamento e determinara a reabertura do Convento. Comunicava-o carta recém-chegada do Rio, à qual o Bispo se apressara em anuir. Chegara, para as vitoriosas freiras, a hora da recompensa, do Te Deum e do Magnificat...

Fonte: Excertos de artigos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na “Folha de São Paulo”: Não leiam ou leiam meu próximo artigo; A nuvem, a onça e o mancebo; Catástrofe, tufão e durabilidade; Resistência na São Paulo colonial.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Beatos Jacinta e Francisco Marto, mensageiros de Na. Sra. de Fátima – 20 de fevereiro

   


  “Rezem, rezem muito e façam sacrifícios pelos pecadores, pois muitas almas vão ao inferno porque não há quem se sacrifique e peça por elas”, foi o que pediu a Virgem de Fátima a Lúcia, Francisco e Jacinta. E, neste dia 20 de fevereiro, a Igreja recorda a memória de dois desses videntes, os Beatos Francisco e Jacinta.
     Francisco nasceu em 1908 e Jacinta, dois anos depois. Desde pequenos aprenderam a tomar cuidado com as más companhias e, por isso, preferiam estar com sua prima Lúcia, que lhes falava sobre Jesus. Os três cuidavam das ovelhas, brincavam e rezavam juntos.
     De 13 de maio a 13 de outubro de 1917, a Virgem lhes apareceu em várias ocasiões na Cova de Iria (Portugal). As três crianças suportaram com valentia as calúnias, injúrias, más interpretações, perseguições e a prisão. Eles diziam: “Se nos matarem, não importa, vamos ao céu”.
     Logo depois das aparições, as crianças seguiram sua vida normal. Lúcia foi para a escola, tal como pediu a Virgem, e era acompanhada por Jacinta e Francisco. No caminho, passavam pela Igreja e saudavam Jesus Eucarístico.
     Francisco, sabendo que não viveria muito tempo, dizia a Lúcia: “Vão vocês ao colégio, eu ficarei aqui com o Jesus Escondido”. À saída do colégio, as meninas o encontravam o mais perto possível do Tabernáculo e em recolhimento.
     O pequeno Francisco era o mais contemplativo e queria consolar a Deus, tão ofendido pelos pecados da humanidade. Em uma ocasião, Lúcia lhe perguntou: “Francisco, o que prefere, consolar o Senhor ou converter os pecadores?”.
     Ele respondeu: “Eu prefiro consolar o Senhor. Não viu que triste estava Nossa Senhora quando nos disse que os homens não devem ofender mais o Senhor, que já está tão ofendido? Eu gostaria de consolar o Senhor e, depois, converter os pecadores para que eles não ofendam mais ao Senhor”. E continuou: “Logo estarei no céu. E quando chegar, vou consolar muito Nosso Senhor e Nossa Senhora”.
     Jacinta assistia diariamente a Santa Missa e tinha grande desejo de receber a Comunhão em reparação dos pobres pecadores. Atraía-lhe muito estar com Jesus Sacramentado. “Quanto amo estar aqui, é tanto o que lhe tenho que dizer a Jesus”, repetia.
     Certo dia, pouco depois da 4ª aparição, Jacinta encontrou uma corda e concordaram reparti-la em três e colocá-la na cintura, sobre a carne, como sacrifício. Isto os fazia sofrer muito, contaria Lúcia depois. A Virgem lhes disse que Jesus estava muito contente com seus sacrifícios, mas que não queria que dormissem com a corda. Assim o fizeram.
     A Jacinta, concedeu-lhe a visão de ver os sofrimentos do Sumo Pontífice. “Eu o vi em uma casa muito grande, ajoelhado, com o rosto entre as mãos, e chorava. Fora, havia muita gente; alguns atiravam pedras, outros diziam imprecações e palavrões”, contou ela.
     Por isso e outros feitos, as crianças tinham presente o Santo Padre e ofereciam três Ave-Marias por ele depois de cada Rosário. Do mesmo modo, as famílias iam a eles para que intercedessem por seus problemas.
     Em uma ocasião, uma mãe rogou a Jacinta que pedisse por seu filho que se foi como o filho pródigo. Dias depois, o jovem retornou para casa, pediu perdão e contou a sua família que depois de ter gasto tudo o que tinha, roubado e estado no cárcere, fugiu para uns bosques desconhecidos.
     Quando se achou completamente perdido, ajoelhou-se chorando e rezou. Nisso, viu Jacinta que o pegou pela mão e o conduziu até um caminho. Assim, pôde retornar para casa. Logo interrogaram Jacinta se tinha se encontrado com o moço e ela disse que não, mas que sim, tinha rogado muito à Virgem por ele.
     Em 23 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram de uma terrível epidemia de bronco-pneumonia. Francisco foi piorando pouco a pouco durante os meses posteriores. Pediu para receber a Primeira Comunhão e, para isso, confessou-se e guardou jejum. Recebeu-a com grande lucidez e piedade. Depois, pediu perdão a todos.
     Eu vou ao Paraíso, mas de lá pedirei muito a Jesus e à Virgem para que lhes leve também logo lá em cima”, disse para Lúcia e Jacinta. No dia seguinte, em 4 de abril de 1919, faleceu com um sorriso angelical.
     Jacinta sofreu muito com a morte do irmão. Mais tarde, sua enfermidade se complicou. Foi levada ao hospital da Vila Nova, mas retornou para casa com uma chaga no peito. Logo confiaria a sua prima: “Sofro muito, mas ofereço tudo pela conversão dos pecadores e para desagravar o Coração Imaculado da Maria”.
     Antes de ser levada ao hospital de Lisboa disse a Lúcia: “Já falta pouco para ir ao céu… Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria. Que as peçam a Ela, que o Coração de Jesus quer que ao seu lado se venere o Imaculado Coração da Maria, que peçam a paz ao Imaculado Coração, que Deus a confiou a Ela”.
     Operaram Jacinta, tiraram-lhe duas costelas do lado esquerdo e ficou uma grande chaga como de uma mão. As dores eram espantosas, mas ela invocava a Virgem e oferecia suas dores pela conversão dos pecadores.
     Em 20 de fevereiro de 1920, pediu os últimos Sacramentos, confessou-se e rogou que lhe trouxessem o Viático, porque logo morreria. Pouco depois faleceu; tinha apenas dez anos de idade.
     Os corpos do Francisco e Jacinta foram transladados ao Santuário de Fátima. Quando abriram o sepulcro de Francisco, viram que o Rosário que lhe colocaram sobre seu peito estava envolvido entre os dedos de suas mãos. Quanto ao corpo de Jacinta, 15 anos depois de sua morte estava incorrupto.
     No dia 13 de maio de 2000, o Papa João Paulo II esteve em Fátima, e do ‘Altar do Mundo’ beatificou Francisco e Jacinta, os mais jovens beatos cristãos não mártires.

Aparições particulares a Jacinta
Jacinta vê o Santo Padre
     Lúcia assim relata na sua Terceira Memória:
     Um dia, fomos passar as horas da sesta para junto do poço de meus pais. A Jacinta sentou-se nas lajes do poço; o Francisco, comigo, foi procurar o mel silvestre nas silvas dum silvado duma ribanceira que aí havia.
     Passado um pouco de tempo, a Jacinta chama por mim:
     – Não viste o Santo Padre? – Não! – Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre em uma casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara, a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-Ihe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por Ele.
     Em outra ocasião, fomos para a Lapa do Cabeço. Chegados aí, prostramo-nos por terra, a rezar as orações do Anjo.
     Passado algum tempo, a Jacinta ergue-se e chama por mim:
     – Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não têm nada para comer? E o Santo Padre em uma igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com Ele?
Visões da guerra
     Um dia fui a sua casa, para estar um pouco com ela. Encontrei-a sentada na cama, muito pensativa.
     – Jacinta, que estás a pensar? – Na guerra que há-de vir. Há-de morrer tanta gente! E vai quase toda para o inferno! Hão-de ser arrasadas muitas casas e mortos muitos padres (tratava-se da 2ª. Guerra Mundial). Olha: eu vou para o Céu. E tu, quando vires, de noite, essa luz que aquela Senhora disse que vem antes, foge para lá também!
     – Não vês que para o Céu não se pode fugir?
     – É verdade! Não podes. Mas não tenhas medo! Eu, no Céu, hei-de pedir muito por ti, por o Santo Padre, por Portugal, para que a guerra não venha para cá, e por todos os sacerdotes.
Visitas de Nossa Senhora
     A 23 de dezembro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram ao mesmo tempo. Indo visitá-los, Lúcia encontrou Jacinta no auge da alegria.
     Na sua Primeira Memória, Lúcia conta:
     Um dia mandou-me chamar: que fosse junto dela depressa. Lá fui, correndo.
     – Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me e, depois, fico lá sozinha!
     Em fins de dezembro de 1919, de novo a Santíssima Virgem se dignou visitar a Jacinta para Ihe anunciar novas cruzes e sacrifícios. Deu-me a notícia e dizia-me:
     – Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem os meus pais; que, depois de sofrer muito, morro sozinha, mas que não tenha medo; que me vai lá Ela buscar para o Céu.
     Durante a sua permanência de 18 dias no hospital em Lisboa, Jacinta foi favorecida com novas visitas de Nossa Senhora, que lhe anunciou o dia e a hora em que haveria de morrer.
     Quatro dias antes de a levar para o Céu, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores. Nas vésperas da sua morte, alguém lhe perguntou se queria ver a mãe, ao que ela respondeu:
     - A minha família durará pouco tempo e em breve se encontrarão no Céu… Nossa Senhora aparecerá outra vez, mas não a mim, porque com certeza morro, como Ela me disse. 
Fontes:

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Beata Elisabete Sanna, Viúva, Terciária Franciscana - 17 de fevereiro

    
     Elisabete nasceu em Codrongianos, na Sardenha, em 23 de abril de 1788, numa família de agricultores rica de fé e de filhos, e morreu com fama de santidade em Roma, em 1857. Logo após a sua morte, sua fama aumentou de forma extraordinária. São Vicente Pallotti foi seu diretor espiritual por 18 anos.
     Elisabete foi acometida pela varíola três meses após o nascimento e se restabeleceu, mas ficou os braços estropiados e as articulações enrijecidas, o que não a impediu de crescer enfrentando sua incapacidade como uma coisa natural, de desenvolver melhor as tarefas domésticas e a se apresentar sempre ordenada e asseada.
     Da família recebeu o dom de uma intensa vida cristã desde pequena, tanto que aos seis anos foi crismada. Pouco depois foi confiada a Lúcia Pinna, terceira franciscana, animadora de um grupo de mulheres dedicadas a Adoração Eucarística, ao Rosário, ao socorro aos pobres. Lúcia, embora analfabeta como muitas mulheres daquele tempo, era uma excelente catequista das crianças da vila e do campo. Na escola, Elisabete aprendeu a conhecer Jesus e a ama-Lo.
     Com 10 anos fez a primeira Confissão e a primeira Comunhão. Frequentava o catecismo dado pelo Pe. Luís Sanna, primo do pai, e convidava suas companheiras a acompanhá-la.
     Com 15 anos, nos dias festivos reunia jovens em sua casa e lhes ensinava a doutrina cristã e a rezar o Rosário. Seu irmão, Antônio Luís, que a incentivara no culto a Nossa Senhora, entrou no Seminário de Sassari e se tornou sacerdote.
     Permanecendo no mundo, se inscreveu nas Confrarias do Rosário e do Escapulário do Carmelo. Viveu uma adolescência serena, cheia de trabalho, de colóquio com Nosso Senhor, de apostolado. Desejava ser religiosa, pois sendo deficiente não pensava em se casar. Entretanto, aos 19 anos é procurada para esposa por jovens de bons princípios.
     Assim, em 13 de setembro de 1807 se casou com Antônio, um bom cristão de modesta condição. Uma festa simples e tranquila, uma total confiança no Senhor e em Nossa Senhora, foi o início de sua vida conjugal. Antônio era um marido e pai exemplar; aos amigos dizia: “Minha mulher não é como as vossas, é uma santa!” Elisabete diria: “Eu não era digna de tal marido, tão bom ele era”. A sua família era modelo para toda a região.
     O casal teve sete filhos dos quais dois morreram muito cedo. Ela passava o dia entre a casa, empenhada na educação dos filhos, e o campo, onde trabalhava sem se poupar. Ainda encontrava tempo para longas horas de oração na igreja.
     Ela mesma preparou seus filhos para a Confissão e a Comunhão e lhes transmitiu o seu grande amor a Jesus, com muita doçura, sem jamais usar modos bruscos. Uma verdadeira educação. Não temia as críticas por sua fé professada e vivida publicamente.
     No dia 25 de janeiro de 1825, seu esposo, assistido por ela, morreu prematuramente. Viúva com cinco filhos – o mais velho de 17 anos, o menor com apenas 3 anos de idade – intensifica a vida de orações e de caridade, sem jamais descurar de seus deveres de mãe e a sua família continua com dignidade e decoro.
     Sua casa se torna quase um pequeno oratório onde, além de seus familiares, se reúnem em oração os vizinhos. Ela vive como uma monja no mundo. Naqueles anos compôs em seu dialeto uma belíssima ladainha que era cantada em Codrongianos.
     Em 1829 chegou à cidade um jovem vice pároco, o Pe. José Valle, de família nobre, de notável ascendência sobre as almas. Ele se tornou o confessor e diretor espiritual da família Sanna, em particular de Elisabete, que chama de tia. O Pe. Valle, vendo as ótimas disposições de Elisabete, a convida à comunhão frequente, permite que ela use o cilicio e que faça o voto de castidade.
     A sua vida cristã se torna ardente. Jesus pede que ela O siga mais de perto. Elisabete pensa em ir à Palestina e confia seus filhos ao irmão sacerdote. No fim de junho de 1830 ela pretendia embarcar no navio para Chipre, mas o Pe. Valle descobre que não tinham visto para o Oriente. Ela então foi em peregrinação para Roma.
     Em 23 de julho de 1830, o Pe. Valle se tornou capelão do hospital Santo Espírito e Elisabete Sanna se acomodou em um pequeníssimo alojamento em frente à igreja do Espirito Santo, bem próximo da Basílica de São Pedro.
     Elisabete somente conhecia seu dialeto natal e por isso não falava com ninguém, só com Deus na oração e vivia na sua pequena cela como uma eremita: visitava igrejas, assistia várias Missas durante o dia, fazia caridade com os pobres. No seu alojamento, dois meses depois, acolheu o Pe. José Valle, como um filho para curar. O padre ali ficará até 1839 assistido por Elisabete como por uma mãe.
     Nas suas peregrinações pelas igrejas de Roma, diante de suas dúvidas se devia voltar para a Sardenha, encontrou certo dia com um santo padre romano, Vicente Pallotti, dedicado a um intenso apostolado junto aos leigos que deu vida, em 1835, à Sociedade do Apostolado Católico. Homem de grande influência sobre religiosos e leigos, rico de um fascínio singular, o Pe. Pallotti seria canonizado em janeiro de 1963.
     Elisabete passou a ser dirigida pelo Pe. Pallotti que, iluminado por Deus, viu a missão a que ela era chamada na Urbe. Ela passou a colaborar na casa de Mons. João Saglia, secretário da Congregação dos Bispos e futuro cardeal. Tornou-se terciária franciscana e primeira colaboradora do Apostolado Católico fundado por São Vicente Pallotti, acompanhou o desenvolvimento do Instituto fundado pelo Pe. Vicente Pallotti, a Congregação dos Pallotinos, por 22 anos, até à sua morte em Roma.
     Elisabete doou todos os seus bens para seus filhos, que viviam na Sardenha, contente em viver na pobreza perfeita. Alguém dirá: “Ela via Deus em tudo e O adorava em todas as coisas”. Na escola de São Vicente Pallotti cresceu ainda mais na sua devoção a Maria Ssma. e sua morada se torna um pequeno santuário mariano onde se reúnem pessoas para rezar com ela.
     Ela é venerada como mãe, também como santa, pelos primeiros pallotinos e por numerosíssimos romanos que de algum modo se aproximaram dela. O próprio Pe. Pallotti tem por ela um enorme estima e incentiva os seus filhos espirituais a ouvi-la.
     Quando o Papa Pio IX foi exilado em Gaeta, e Roma caiu em mãos dos sem Deus, Elisabete demonstrou uma grande fortaleza diante daqueles que a hostilizam: “Por quem rezas?”, perguntam com ironia. - “Por todos!” “E também pela república?” – “Eu não conheço esta pessoa!”
     São Vicente Pallotti faleceu em 22 de janeiro de 1850, morte prevista por Elisabete, que agora ficava mais sozinha. Intensifica suas orações e o seu apostolado. Torna-se a santa que conquistou o coração dos romanos. Já anciã e sofredora, se consome como uma vela que arde no altar. No dia 17 de fevereiro de 1857, Elisabete falece após ter visto São Vicente Pallotti e São Caetano de Thiene, que vinham buscá-la para o Paraiso.
     No seu funeral as pessoas diziam: “Morreu a santa de São Pedro”. Era tão grande o consenso popular sobre ela, que 4 meses apenas após a sua morte foi nomeado o postulador da sua causa de beatificação, que durou um século e meio. Como resultado de uma cura havida no 2008 de uma jovem brasileira que tinha um tumor que paralisava um braço, foi beatificada em 17 de setembro de 2016, na Basílica da Santíssima Trindade de Saccargia em Codrongianos.
 

A Beata e o demônio
     No processo de beatificação e canonização da Beata consta que os assédios de satanás não eram incomuns em sua vida. Duas testemunhas proeminentes relataram: o seu diretor espiritual Pe. José Grappeli e a grande amiga Adelaide Balzani.
     Balzani disse: "Tendo mencionado os maus tratos que o demônio lhe infringia durante a noite, devo acrescentar que ela me dizia que o diabo aparecia nas formas feíssimas, e que às vezes apertava sua garganta para sufocá-la, e ela o punha em fuga invocando a Virgo Potens”.
     “Outras vezes ela recorria à água benta, e embora devido à sua deficiência não pudesse tomá-la com a mão, ela colocava uma pequena vasilha sobre a mesa e o colocava sobre a fronte. Creio que deve ser atribuída ao diabo aquela irrupção extraordinária de ratos que de dia invadiam sua sala”.
     “Eles passeavam pela sala com a maior desfaçatez, mesmo na minha presença e de outros, e se alguém tinha levado qualquer coisa mais delicada para comer - que a Serva de Deus certamente dispensava para doentes pobres, porque ela nunca usava para si - os ratos estragavam tudo em um momento, porém sem comê-lo”.
     “Minha mãe disse a ela que nunca mais iria vê-la ir por causa daqueles bichos e a Venerável disse que os animais não eram para ela. E isto confirmou a opinião comum, compartilhada pelo Pe. José Grappelli, que naqueles camundongos havia algo não muito natural, talvez fosse obra do demônio”.
     “Acrescento que a Venerável questionada por mim sobre as infestações diabólicas, me dizia que o diabo não pode fazer nada além do que Deus permite e que ele nada obtém daqueles que têm uma verdadeira confiança em Deus e na Santíssima Virgem. Ela me disse que uma noite o demônio apareceu como um cavalo soltando fogo pela boca, narinas e olhos e se lançou sobre ela. Ela ficou surpresa e não podia se libertar, exceto quando com grande força invocou a Virgo Potens e ouviu Nossa Senhora  responder-lhe: "Aqui estou, filha!" E o demônio desapareceu".
     O Pe. José Grappelli informou que o demônio a molestava durante a noite com a aparição de pessoas imundas e assustadoras, ou de um cão raivoso que mordia seu rosto, ou um cavalo selvagem; sufocava sua garganta, batia e machucava; às vezes ele aparecia sob o disfarce do marido ou de um filho, que lhe faziam propostas horríveis.
    "Toda vez que eu ia ter com ela, me implorava para marcá-la com água benta e para aspergir o quarto e a cama, e me dizia que na época de Pe. Vicente Pallotti e Pe. F. Vaccari essas batalhas eram mais frequentes e terríveis, e muitas vezes eles recorreriam aos Oblatos de Tor de Specchi, à Senhora Rosa Rinaldi, que muitas vezes viu os hematomas, o inchaço extraordinário da face e outros sinais na Serva de Deus, e também de alguma forma eram conhecidos da Marquesa Fioravanti, de Joana Guidi e outros, e, na última aparição, a do cavalo bufando fogo, a Serva de Deus teve tanto medo, que sua saúde ficou muito abalada". 
Fonte: Pe. Marcello Stanzione