quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Há 175 anos, Aparição de Nossa Senhora del Miracolo – 20 de janeiro de 1842


Nossa Senhora do Milagre

Um dos fatos marcantes da história religiosa do século XIX foi a aparição de Nossa Senhora ao judeu Afonso Ratisbonne e sua retumbante conversão ao Catolicismo

Muito distante da fé católica vivia o jovem banqueiro Afonso Ratisbonne, natural de Estrasburgo, nascido em 1814, de riquíssima família israelita. No dia 20 de janeiro de 1842, em viagem turística a Roma, por curiosidade meramente artística ele acedeu entrar na Igreja de Sant Andrea delle Fratte, acompanhado de um amigo, o Barão de Bussières. Enquanto este foi à sacristia, a fim de encomendar uma missa, o jovem judeu apreciava as obras de arte daquele templo. Quando se encontrava diante do altar consagrado a Nossa Senhora das Graças da Medalha Milagrosa (hoje conhecido como altar da Madonna del Miracolo — Nossa Senhora do Milagre), Ela apareceu-lhe e o converteu instantaneamente de inimigo da Igreja católica em seu fervoroso apóstolo.
Na data comemorativa da impressionante aparição e conversão, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira recomendava que se rezasse especialmente à Madonna del Miracolo. Assim, numa ocasião ele dirigiu a Ela as seguintes palavras:



Altar de Nossa Senhora do Milagre na Igreja de Sant'Andrea delle Fratre, Roma


Ó Imaculada Mãe de Deus, Madonna del Miracolo, que quisestes conquistar com um singular prodígio de vossa misericórdia o israelita Afonso Ratisbonne, acolhei as súplicas que vos apresentamos com confiança, como um dia acolhestes as súplicas daqueles que a Vós recorreram pedindo a conversão do filho judeu. Obtende-nos também uma sincera e total conversão à graça e todos os bens da alma e do corpo.
Vossa clemência triunfou sobre Ratisbonne, persuadindo-o a receber o batismo e a empenhar-se com vontade séria na observância dos Mandamentos. Por esta conquista do vosso amor, obtende-nos a perseverança no cumprimento das promessas do batismo. Fazei com que nenhum obstáculo se interponha à nossa observância dos preceitos de Deus e da Igreja.
Vossas mãos resplandecentes são símbolo das inumeráveis graças que com maternal bondade dispensais profusamente sobre a Terra. Fazei resplandecer também sobre nós um raio da vossa misericórdia.

Busto de Alphonse Ratisbonne, já sacerdote (fundou um instituto)


Assista o vídeo: https://youtu.be/TI8GhhOKoPY


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Beata Beatriz II d'Este, Viúva e Monja - 18 de janeiro


 A Beata Beatriz venerada por suas coirmãs

Martirológio Romano: Em Ferrara, Beata Beatriz d’Este, monja, que diante da morte do marido, tendo renunciado ao reino deste mundo, se consagrou a Deus em um mosteiro por ela mesma fundado sob a regra de São Bento

     As informações biográficas desta Beata, provenientes do testamento do pai, constam da pequena biografia de um monge de Pádua, quase seu contemporâneo, que dá uma noção da crônica de Ferrara e da biografia de uma monja daquela cidade (cf. Mosteiro de Santo Antônio Abade, Catasto dei privilegi del sec. XVI ed altra copia del sec. XV in Bibl. Ariostea, fondo Antonelli, n. 503.  Ver também Analecta Juris Pantificii, 1880, p. 668.)
     Beatriz pertencia a uma família abastada de Ferrara, onde nasceu por volta de 1230; era filha de Azzo VII marquês d’Este e senhor de Ferrara e de Joana de Púglia. Sua mãe faleceu quando ela tinha apenas 7 anos e seu pai tornou a se casar; Mabilia, da casa Pallavicino, foi uma verdadeira mãe para a pequena.
     Educada por sua tia Beatriz I d’Este (1192-1226, também canonizada e celebrada no dia 10 de maio), monja de Gémola, perto de Pádua, ela recebeu uma excelente educação, para a qual contribuiu igualmente uma outra religiosa, sua avó Leonor de Saboia
     Em 1249, por obrigações familiares, Beatriz deveria contrair núpcias com Galéas, filho de Manfredo, alcaide da cidade de Vicência. Quando se dirigia a Milão para se casar, recebeu a triste notícia da morte de Galéas provocada por graves feridas recebidas em batalha contra Frederico II no dia anterior. 
     Voltando para Ferrara, e contra a vontade de seus pais, retirou-se definitivamente optando pela vida religiosa no convento de São Lázaro, situado a oeste da cidade, juntamente com sete donzelas da corte que quiseram acompanhá-la.
    Tendo crescido o número de religiosas, Beatriz obteve do Papa Inocêncio IV a sua transferência para o mosteiro de Santo Estêvão da Rota (1257), junto do qual acabou por ser construída, em 1267, uma igreja dedicada a Santo Antônio, Abade.
     Beatriz fez os seus votos perante o bispo João, abraçando para sempre a regra de São Bento em 25 de março de 1260.
     Ali viveu santamente até ao dia 18 de janeiro de 1266, data em que entregou ao Esposo celeste a sua alma santa. Beatriz faleceu com 36 anos de idade; seu corpo foi muito bem lavado por suas coirmãs e a água foi recolhida e dada em pequenos frascos para os fiéis, porque eles queriam manter algo da monja antes dela ser enterrada.
     Esta água operou muitos milagres e curas; tendo se espalhado a notícia, a cada ano, por ocasião da data de seu falecimento, as monjas lavavam o corpo incorrupto da Beata, o que aconteceu até 1512, quando os restos se desintegraram, conforme testemunhado pela abadessa Arcângela Bevilacqua, permanecendo apenas os ossos. Estes foram, posteriormente, recolhidos em uma urna dentro de uma arca ricamente decorada com ouro e pedras preciosas.
     A mesma arca começou a produzir espontaneamente uma espécie de condensação uma vez por ano, durante cinco meses. O fenômeno nunca foi interrompido, ocorrendo até hoje entre outubro-novembro até o mês de março de cada ano. São recolhidos vários litros de líquido milagroso que são doados aos fiéis, e isto ocorre durante as temperaturas frias de inverno nos meses de coleta e não congelam. Os seus ossos exalam um perfume delicado.
     A água, conhecida como “licor” ou “lágrimas da Beata”, foi analisada em 1935 pelo Prof. José Bragagnolo e novamente analisada em 1961 no Instituto de Química da Universidade de Ferrara: após 26 anos, os resultados foram os mesmos de 1935. O mosteiro de Santo Antônio, em Polesine, retém documentos coletados no Domesday Book em 4 envelope sobre as graças e milagres obtidos por intercessão da Beata, com ou sem o uso do "licor".
     O mosteiro fundado pela Beata se mantém até os dias de hoje. As monjas são de clausura, mas têm uma dispensa especial do bispo para abrir algumas áreas para visitas programadas muito rígidas, algo muito proveitoso do ponto de vista espiritual.
   Numerosos são as graças que são obtidas pelos peregrinos. Graças obtidas em ocasiões de calamidade públicas tornam o local objeto de grande veneração
     O Papa Clemente XIV aprovou o culto da Beata em 23 de julho de 1774 e o Papa Pio VI concedeu a Missa e o Ofício em 1775, fixando a celebração da sua festa a 19 de janeiro, porque nesse tempo o dia 18 de janeiro era reservado à festa – agora suprimida – da Cátedra de São Pedro em Roma. Atualmente ela é comemorada no dia de seu falecimento, 18 de janeiro.
    
Fonte: várias fontes italianas; www.santiebeati/it

Etimologia: Beatriz, do latim Beatrix, do italiano Beatrice: “a que faz feliz alguém”; feminino de beatus, “feliz, beato, ditoso, bem-aventurado”.
Mosteiro de Santo Antonio

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Santa Joana de Bagno di Romagna, Monja camaldulense – 16 de janeiro

Santa Inês de Bagno di Romagna
Martirológio Romano: Em Bagno di Romagna, na atual Emília-Romanha, região da Itália, Santa Joana, virgem, que, recebida na Ordem Camaldulense, resplandeceu singularmente pela sua obediência e humildade.

     Sobre Santa Joana de Bagno di Romagna, comemorada hoje, são muito poucas as informações históricas disponíveis.
     Joana viveu no século XI e foi consagrada a Deus desde menina, caminhou a passos largos no caminho da santidade e manteve intacto o lírio da virgindade. Foi companheira de Santa Inês de Bagno di Romagna (comemorada no dia 29 de janeiro) no convento Camaldulense de Santa Lúcia, em Bagno di Romagna, na província de Forli.
     Quando a santa monja Joana morreu, em 1105, os sinos começaram a soar espontaneamente.
     Venerada em toda a diocese de Borgo San Sepulcro e patrona de sua cidade, o culto foi oficialmente confirmado pela Santa Sé em 15 de abril de 1823, juntamente com o de Santa Inês de Bagno di Romagna.
     O Martirológio Romano a comemora no dia 16 de janeiro, referindo-se a ela como "um esplêndido exemplo de obediência e humildade", enquanto o Menológio Camaldulense optou por uma data diferente, 13 de fevereiro.

     As duas Santas camaldulenses também são retratadas em um afresco na igreja da Camáldula de Bagno de Romagna.

Igreja da Camáldula de Bagno di Romagna

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Santa Ivete de Huy, Viúva, Reclusa - 13 de janeiro

   
     Os séculos XII e XIII foram marcados em Liége por uma rica energia espiritual, pelo envolvimento das religiosas que se dedicavam a Deus em reclusões ou em beguinatos. Entre elas, Ivete (ou Juette) de Huy, Juliana de Liège ou Eva de São Martinho.
     A vida de Santa Ivete chegou até nós através de seu confessor e biógrafo, um cônego chamado Hugo de Floreffe (Floreffe era uma abadia norbertina, na Diocese de Namur), que escreveu a vida de Santa Ivete por volta de 1230 em latim medieval. Ele também escreveu a vida de Santa Ida de Nivelles e de Santa Ida de Leuwe, religiosa da Ordem de Cister no Brabante.
     Ivete nasceu em 1158, em Huy, Bélgica, em uma família de classe média alta, seu pai era administrador dos bens do bispo de Liège, na região de Huy.
     A partir da idade de 12 anos Ivete manifestou o desejo de consagrar-se a Deus. Apesar disso e, de acordo com um costume muito difundido na época, com a idade de 13, incapaz de opor-se, foi dada em casamento a Henry Stenay, filho de um grande cidadão de Huy. Nada preparada para o casamento, Ivete abominava a vida conjugal e odiava o marido. Levou tempo para superar essa crise e voltar a sentimentos mais equilibrados. Ela aceitou a legitimidade das demandas de seu marido, e ainda conseguiu amá-lo. Ivete teve três filhos, dos quais um morreu pouco tempo depois de batizado.
     Após cinco anos, seu marido morreu deixando-a, aos 18 anos, viúva com dois filhos. Era ainda jovem e bonita e seu pai tenta casá-la novamente. Mas desta vez Ivete, adulta, estava bem determinada a seguir o caminho da consagração a Deus. Ela não cedeu. Seu pai, um parente do bispo de Liège, Raoul Zähringen, leva-lhe a viúva teimosa. Ivete, intimidada perante o tribunal do bispo, fica silenciosa. Raoul, em seguida, ouviu-a em uma audiência particular. Ivete pede-lhe apoio a sua causa e seu desejo de ser totalmente entregue a Deus; o bispo lhe dá razão. Seu pai teve que ceder.
     Em seguida, dedicou-se à educação de seu filho e da prática da caridade. Sua generosidade é bem conhecida: pobres, peregrinos e viajantes eram abrigados por ela. Ela anunciou que em breve deixaria o mundo. Ela faz arranjos para garantir o futuro de seus filhos e se retirou para um leprosário malconservado. Na idade de 24, continuando seu caminho espiritual, Ivete se coloca ao serviço dos leprosos em uma colônia de leprosos em Statte, nas colinas da cidade de Huy.
    Durante dez anos ela se dedicou de corpo e alma ao cuidado destes excluídos sem descurar qualquer esforço. Aspirando a ser unida a Cristo, negligencia todas as precauções; ela estava mesmo disposta a ser atingida pela lepra, para uma melhor identificação com Cristo.
     Uma vida tão prodigiosa causa admiração. As pessoas vêm pedir-lhe conselhos, pedindo sua intercessão. Um grupo de fieis e discípulos se reúne em torno dela.
     Por volta de 1191, ela ainda aumentaria mais a penitência: aos 34 anos, Ivete foi fechada em uma cela, em Statte, da qual ela não sairia jamais. Do alto da colina, ela era como um anjo da guarda de Huy. Na véspera da sua entrada no isolamento, ela recebeu uma grande graça: a conversão de seu pai, que até então fizera de tudo para desviá-la de sua extraordinária vocação. Ele foi tocado pela graça e se converteu. Como ele era viúvo, ingressou na abadia cisterciense de Villers-en-Brabant. Ele é recordado como Beato Otto de Villers.
     Os discípulos aumentam e as esmolas também. Ivete não se esqueceu de seus filhos. O primeiro entrou na Abadia de Orval, da qual seria abade. O segundo levava uma vida desregrada. Muitas vezes Ivete o chama para ralhar e fazê-lo voltar aos trilhos. Ele promete se emendar, promessa não cumprida. Ivete finalmente ordenou-lhe deixar a região, porque era motivo de grande escândalo. Ele se converteu mais tarde e também se tornou monge cisterciense na Abadia Trois-Fontaines.
     De acordo com seu biógrafo, Ivete recebeu dons místicos, especialmente o de ler as consciências. O número de seus seguidores foi aumentando, mas também fez com que a suas previsões causassem descontentamentos, porque ela dizia em voz alta o que queriam esconder.

     Com a esmola recebida, a reclusa de Huy construiu um hospital para leprosos com uma grande igreja. Ela dirigia a construção a partir de sua cela. Várias jovens se agruparam em torno dela e se tornaram suas discípulas.
     Ivete morreu em sua cela no dia 13 de janeiro de 1228 aos 70 anos de idade. Imediatamente grande veneração e um culto a ela se desenvolveu. Devido à grande veneração por ela, muitos fiéis exigiram o reconhecimento da santidade do “anjo da guarda de Huy”. Embora uma aprovação formal nunca tenha existido, ela é venerada ainda hoje como santa.
     Ela é emblemática de um movimento místico feminino que floresceu na Idade Média, que já contava com Maria de Oignies, Hildegarda de Bingen, ou Ida de Nivelles.

Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Ivette_de_Huy

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      A lepra foi particularmente temida. Surtos da doença tinham aparecido na Gália, no século IV, transmitida por contatos com o Oriente. Os pacientes viviam separados e inspiravam terror. Eles tinham que sinalar sua passagem por meio de um guizo para que as pessoas se afastassem deles. Eles viviam em leprosários, criados a partir do século VIII, quando a doença se tornou endêmica. Localizados fora das cidades, cabanas ou barracas eram colocadas perto de um rio, porque os banhos eram considerados saudáveis, serviam de habitação para os leprosos que trabalhavam como fazedores de corda, escorchavam animais ou eram coveiros.
    Somente indivíduos com forte inspiração religiosa encontravam nela recursos para tratar daquelas pessoas consideradas afetadas por castigo divino. Assim São Martinho não hesitou em tocá-los, bem como reis como Roberto, o Piedoso e São Luís IX.
     A doença afetou todos os estratos sociais; o leproso era considerado o infeliz por excelência. Por vezes, outras doenças da pele eram assimiladas à lepra.
     São Julião o Hospitaleiro criando leprosários era o exemplo do santo que vinha em auxílio de seu próximo do qual todo mundo se afasta. Cavaleiros afetados pela doença, não hesitam em entrar nas Ordens Hospitaleiras para cuidar dos outros leprosos. Muitas vezes os leprosários (ou lazaretos) eram administrados pelos próprios leprosos. Chamados Irmãos Donatos, porque dados a Deus, eles deviam em princípio viver sujeitos à regra da Ordem. Se ele era casado, o Irmão tinha que deixar o leprosário, e perdia os lucros decorrentes da gestão da propriedade comum.
     A endemia foi particularmente forte no Ocidente nos séculos XI e XII (regresso das Cruzadas), por vezes atingindo dois por mil habitantes. Foi neste momento que a exclusão dos leprosos foi a mais viva e que a hostilidade popular foi mais violenta. A grande peste no século XIII diminuiu a lembrança, no século XIV a lepra diminuiu. Os últimos leprosários desapareceram no final do século XV e na virada do século XVI.

     Santa Alpais, contemporânea de Santa Ivete, cuja vida também foi ligada à lepra pode ser vista em: http://ut-pupillam-oculi.over-blog.com/article-13537351.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Beata Alix (Alice) Le Clercq, Cofundadora - 9 de janeiro

     
     Uma das grandes obras da Contrarreforma foi ter começado a preocupar-se com a educação das meninas. Em 1535, Santa Ângela de Merici fundou a Congregação das Ursulinas com este fim. Santa Joana de Lestonnac fundou, em 1606, a Congregação das Religiosas de Nossa Senhora. Por sua vez, São Pedro Fourier fundou as Canonisas Regulares de Santo Agostinho da Congregação de Nossa Senhora, obra na qual Alix Le Clercq cooperou como cofundadora.
     Alix nasceu em Remiremont, ducado de Lorena, em 1576. Sua família ocupava uma posição de destaque, mas pouco se sabe da vida de Alix até os dezessete anos. Era então uma jovem alta e bela, loura, de constituição delicada, atraente e inteligente. Outro relato, escrito por ela mesma, nos informa que se distinguia na música e na dança, que era muito popular e que tinha muitos admiradores. Alix deixa entender que se envaidecia com isto, o que é provável. Entretanto, lembremo-nos que os santos tendem a exagerar seus defeitos.  Por outro lado, Alix demonstra que não deixava de ter seriedade: “Em meio a tudo isto, meu coração estava triste”. Pouco a pouco a frivolidade de sua vida se lhe tornou insuportável.
     Aos dezenove anos um primeiro sonho veio mudar sua vida. Ele se viu em uma igreja, próximo do altar, a seu lado se encontrava Nossa Senhora vestida com um hábito religioso desconhecido, que lhe fala: "Vem, minha filha, que eu mesma vou te dar as boas-vindas".
     Pouco tempo depois, a família Le Clercq foi morar em Hymont. Ali a jovem encontrou São Pedro Fourier, que era vigário de uma paroquia de Mattaincourt, nas redondezas. Um dia em que assistia à Missa nessa paroquia, Alix ouviu um ruído de tambor e viu o demônio que fazia os jovens dançar “ébrios de alegria". Nesse instante se deu a conversão de Alix, que nos disse: "Ali mesmo resolvi não me misturar com semelhante companhia".
     Alix trocou seus vestidos finos pelas roupas das camponesas, e pouco saía de sua casa. Sob a prudente direção de São Pedro Fourier, procurou descobrir qual a vontade de Deus a seu respeito, o que lhe causou grandes sofrimentos espirituais. Tanto seu pai como São Pedro Fourier aconselharam que ela entrasse em um convento. Ao que ela não concordou, pois em um sonho lhe fora revelado que não existia nenhuma forma de vida religiosa adaptável à sua vocação.
     Alix confiou a São Pedro Fourier que estava obcecada pela ideia de fundar uma congregação ativa. Este se mostrou cético, mas a aconselhou procurar outras jovens que compartilhassem de suas ideias, coisa muito difícil em um povoado afastado. Alix, porém conseguiu encontrar companheiras.
     Na Missa de Natal de 1597, Alix Le Clercq, Ganthe André, Isabel e Joana de Louvroir se consagraram publicamente a Deus. Quatro semanas depois, São Pedro Fourier convenceu-se de que elas eram chamadas a fundar uma comunidade sob sua direção. Alix recebeu o nome de Irmã Maria Teresa de Jesus Le Clercq.
     Uma solução inesperada: a quatro quilômetros de Mattaincourt havia uma abadia de canonisas seculares. Era uma comunidade de ricas e aristocráticas damas que levavam uma vida conventual. Uma dessas senhoras, Judith d'Apremont, decidiu proteger Alix e suas três companheiras dando-lhes para morar uma casinha em suas propriedades. As jovens se instalaram ali na véspera de Corpus Christi de 1598. Ao terminar um retiro, declararam unanimemente a São Pedro Fourier que se sentiam chamadas a fundar uma nova congregação, já que esta era a vontade de Deus para elas. A finalidade do novo instituto era "ensinar as meninas a ler, a escrever e a costurar, mas sobretudo a amar e servir a Deus". A esta santa ocupação elas deviam se dedicar, sem distinguir entre pobres e ricos, e sem cobrar nem um centavo, "porque isto agrada mais a Deus".
     Em 1601, São Pedro Fourier e a Beata Alix fundaram uma segunda casa em Mihiel, seguida pelas de Nancy, Pont-à-Mousson, Saint-Nicolas du Port, Verdún e Chalons. Esta última, estabelecida em 1613, foi a primeira fundação fora da Lorena.
     Alix e uma das companheiras foram enviadas por São Pedro a um convento das Ursulinas de Paris para que se documentassem sobre a vida monástica e os métodos de ensino.
     Em 1616, duas bulas da Santa Sé concederam afinal a desejada aprovação da congregação. Com base nisto, o Bispo de Toul aprovou as Constituições. Pela primeira vez treze religiosas vestiram o hábito que a Virgem revelara na visão a Alix, e iniciaram o ano de noviciado.
     Como as bulas papais somente mencionassem o convento de Nancy, a Beata Alix teve que renunciar ao cargo de superiora da Congregação a favor da Madre Ganthe André, “sem a qual, explica São Pedro Fourier, nossa congregação não teria podido ser fundada”, apesar de Madre André e de Alix não estarem de acordo sobre a organização.
     Além desta provação, a beata atravessava um período de crise espiritual conhecido por “noite escura da alma”. Atualmente lhe é reconhecido o título de cofundadora das Canonisas de Nossa Senhora, mas isto não acontecia durante sua vida e São Pedro Fourier era o primeiro a negar a ela este título, “para mantê-la em seu lugar”.
     Em 1621, a Beata obteve permissão para renunciar ao cargo de superiora local de Nancy, pois estava doente já há algum tempo. Os médicos a declaram incurável, diagnóstico que desconsolou toda Nancy, desde o duque e a duquesa da Lorena até as alunas e os mendigos.
     São Pedro Fourier foi para Nancy e a ouviu em confissão e a preparou para a morte. Alix se despediu solenemente da comunidade no dia da Epifania, exortando suas religiosas ao amor e a união. O desfecho chegou no dia 9 de janeiro de 1622, depois de uma longa agonia. A Beata não havia feito 46 anos de idade.
     Logo todos a aclamaram como santa e imediatamente se começou a recolher testemunhos para introdução de sua causa, mas a guerra impediu que o processo fosse adiante e ela somente foi beatificada em 1947.
     Em 1666, o convento de Nancy publicou uma vida da Beata Alix Le Clercq, que é na realidade uma coleção de documentos valiosos sobre a beata. O bispo de Saint-Dié introduziu, em 1885, a causa de beatificação, baseando-se em um exemplar dessa biografia que havia caído em mãos do Conde Gandélet. A primeira biografia propriamente dita foi publicada em Nancy em 1773; existe o manuscrito de outra, escrita em 1766; em 1858 veio à luz outra biografia, e a partir de então se multiplicaram os livros sobre a Beata.
     Há ainda a mencionar as vidas de São Pedro Fourier, escritas por Bedel (1645), Dom Vuillemin (1897), e o Pe. Rogie. O autor do prefácio da biografia inglesa da Beata Alix, fala dos excelentes métodos de educação empregados pelas canonisas. São Pedro Fourier ensinava pedagogia a suas religiosas.

     Madre Maria Teresa de Jesus Le Clercq foi beatificada em 1947 por Pio XII.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Solenidade da Epifania, segundo o Evangelho de São Mateus

   
     Neste dia da Epifania, celebramos a manifestação de Cristo aos três reis magos.
    Guiados por “uma luz humilde, como faz parte do estilo do Deus verdadeiro”, o pequeno grupo bate à porta de Belém, avistando “o menino com Maria, sua mãe”. Diz a leitura que “ajoelharam-se diante d’Ele, e O adoraram”.
     A cena nos revela a face missionária de Deus. Mas, neste caso, trata-se de uma missão às avessas, uma vez que já não é o missionário quem leva Cristo ao homem, mas é o homem que, através da estrela, vai até Cristo para adorá-Lo na carne, em Sua humanidade.
     Aqui, então, se apresenta aquela famosa citação d’As Confissões de Santo Agostinho: “Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”.
     Deus nos chama. Todos nós, por mais pecadores que sejamos – cristãos e não-cristãos -, estamos naturalmente inclinados para o Criador. Desejamos a salvação eterna, mesmo que, muitas vezes, a procuremos no lugar errado.
    O fato de serem pagãos, com efeito, não impede aqueles magos de reconhecerem no pequeno menino envolto em faixas o rei que lhes havia de nascer.
     Pelo contrário, prostram-se para adorá-Lo, dando-Lhe como presente “ouro, incenso e mirra”. Eles adoram o Verbo Encarnado, o Deus que se fez homem para nos redimir de toda falta e toda culpa.
     A Solenidade da Epifania recorda-nos, por sua vez, que o único lugar onde, de fato, podemos encontrar Deus nesta Terra é na humanidade de Jesus.
     É algo de grande importância para a nossa fé, sobre o qual devemos insistir e meditar repetidas vezes – mormente nestes tempos em que a separação entre o Cristo histórico e o Jesus da fé é promovida a olhos vistos, mesmo dentro da Igreja.
     A troco de uma suposta paz duradoura, em que se haja um único governo mundial e, obviamente, uma única super-religião, não são poucos os que se propõem a jogar fora a verdade de nossa fé.
     À revelia do depósito Sagrado da Doutrina Cristã, esses novos patronos da razão esclarecida jogam toda sorte de dúvida sobre a natureza humana e divina de Cristo, ressuscitando nos dias de hoje o antigo fantasma da heresia gnóstica.
     Durante séculos, a Igreja precisou se manifestar contra essa tentação perniciosa em que se concebe uma fé cristã desencarnada, sem necessidade da Igreja e dos sacramentos e alimentada por supostas experiências místicas e “encontros pessoais”.
     Nesta seara, lutou bravamente Santa Teresa de Jesus. Conforme relatos de seu Livro da Vida, a santa de Ávila teve de lidar com certos “entendidos e letrados” que, absurdamente advogavam a devoção à humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo como coisa de iniciantes.
     Para estes, a espiritualidade das almas “evoluídas” deveria ir para Deus, a frequência aos sacramentos era posta de lado, julgava-se coisa obsoleta.
     Não obstante, contrariando aqueles ideais, Santa Teresa diz às claras que a devoção à humanidade de Jesus consiste em algo fundamental para qualquer cristão, de qualquer época e em qualquer lugar.
     E foi assim que ela introduziu entre os carmelitas a fé no Verbo Encarnado. É famoso o episódio em que, subindo as escadarias de seu Carmelo, a santa encontra um menino e ele lhe pergunta: “Quem é você?” Ao que ela responde: – “Eu sou Teresa de Jesus, e você?” “Eu sou Jesus de Teresa”.
     No capítulo 26 de Caminho de perfeição, procurando explicitar através das imagens a necessidade dessa fé no Cristo encarnado, Santa Teresa D’Ávila diz:
     […] Assim, irmãs, não vos julgueis para tão grandes trabalhos, se não sois para coisas tão poucas, exercitando-vos nestas, podereis chegar a outras maiores.
     O que podeis fazer para ajuda disto é procurar trazer uma imagem ou retrato deste Senhor que seja a vosso gosto, não para trazê-lo no seio e nunca para ele olhar, mas para falar com Ele muitas vezes, que Ele mesmo vos ensinará o que Lhes haveis de dizer.
     Assim como falais com outras pessoas, por que hão de faltar-vos mais as palavras para falardes com Deus?
     De igual modo, nesta Solenidade da Epifania, em que Jesus apresenta-se como o Deus feito homem, outra Teresa vem nos ensinar como adorar o pequeno grande Menino Deus.
     Imitando a ação dos três reis magos de dar presentes a Jesus, Teresa de Liseux, nos escritos de História de uma alma, apresenta-se também como presente ao Menino, mas não como “ouro” ou “mirra”, como um brinquedo sobre o qual Jesus possa ter total domínio e autonomia.
     Nesta simplicidade, Santa Teresinha do Menino Jesus vem nos recordar que devemos nos entregar a Deus sem reservas e sem qualquer receio, como verdadeiros filhos que se submetem à vontade dos pais.
     Rezemos a Deus para que, percorrendo os passos dessas duas grandes santas, possamos fazer-nos simples “brinquedos” em Suas mãos de pequeno e frágil menino.

Fonte: padrepauloricardo.org

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal

                        Armando Gimenez (*)

     Das figuras bíblicas mais intimamente ligadas à tradição religiosa do povo destacam-se os Reis Magos, ou melhor, os Santos Reis, uma vez que a hagiologia romana considera-os bem-aventurados.
   O simbolismo dos Reis Magos é amplo e emprestam-lhes os exegetas as mais diversas interpretações. Estão ligados intimamente às festas do Natal e deles nasceu, praticamente, a tradição do Papai Noel, pois os presentes dados nessa ocasião reproduzem que os magos do Oriente, depois de cumprida a rota que lhes indicava a estrela de Belém, prestaram a Jesus na gruta onde ele nascera.
     As referências bíblicas são vagas e o episódio quase passa despercebido dos evangelistas, mas as contribuições da tradição patriática são muitas e, como elas têm força de fé e verdade, nelas devemos buscar grande parte das coisas que se contam dos santos Belchior, Gaspar e Baltazar já referidos pelos profetas do Velho Testamento, que vaticinavam a homenagem dos Reis ao humilde filho de Davi que deveria nascer em Belém.
     De onde vieram e o que buscavam pouca gente sabe. Vinham do Oriente e Baltazar, o mago negro talvez viesse de Sabá (terra misteriosa que seria o sul da Península Arábica ou, como querem os etíopes, a Abissínia). Simbolizam também as três únicas raças bíblicas, isso é, os semitas, jafetitas e camitas. Uma homenagem, pois, de todos os homens da Terra ao Rei dos Reis.
     Eram magos, isto é, astrólogos e não feiticeiros. Naquele tempo a palavra mago tinha esse sentido, confundindo-se também com os termos sábio e filósofo. Eles perscrutavam o firmamento e sentiram-se perplexos com a presença de um novo astro e, cada um deles, deixando suas terras depois de consultar seus pergaminhos e papiros cheios de palavras e fórmulas secretas, teve a revelação de que havia nascido o novo Rei de Judá e, que ele, como soberano, deveria, também, prestar seu preito ao menino que seria o monarca de todos os povos, embora o seu Reino não fosse deste mundo.
O simbolismo dos presentes
     Conta ainda a tradição que, ao chegar a Jerusalém, indagaram os Magos onde havia nascido o novo Rei de Judá. Essa pergunta preocupou Herodes, que hoje seria considerado um quisling a serviço dos romanos, e que reinava na Judéia.
     Os representantes do Império preocupavam-se com o aparecimento de um novo líder do povo de Israel. A revolta dos Macabeus ainda não fora esquecida e o povo oprimido esperava, ansioso, pela vinda do Messias que iria libertar o Povo de Deus e cumprir a palavra do salmista: "Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita até que ponho os teus amigos como escabelo aos teus pés".
     Os magos procuram – conforme conselho de Herodes – o novo Rei para render-lhe homenagem e para informar o representante romano do lugar onde nascera o Messias a fim de, com falso preito, sequestrá-lo.
     No presépio encontramos apenas os animais e os pastores e, inspirados pelo Espírito Santo, curvaram-se diante do filho do carpinteiro de Nazaré e depositaram, ao pé da manjedoura que lhe servia de berço, os presentes: ouro, incenso e mirra, isto é prendas que simbolizavam a realeza, a divindade e a imortalidade do novo Rei, e grão de areia que cresceria e derrubaria o ídolo de pés de barro (símbolo das grandes potências que se sucederam no domínio do mundo), do sonho de Nabucodonosor decifrado pelo profeta Daniel.
Símbolos da humildade
     Na tradição cristã os três Reis Magos simbolizavam os poderosos que deveriam curvar-se diante dos humildes na repetição real do canto da Virgem Maria à sua prima Isabel, o "Magnificat", pois sua alma rejubilava-se no Senhor, que exaltaria os pequenos de Israel e humilharia os poderosos.
     A igreja cultua os Reis Magos dentro desse simbolismo. Representam os tronos, os potentados, os senhores da Terra que se curvaram diante de Cristo, reconhecendo-lhe a divina realeza. É a busca dos poderosos que veem em Belchior, Gaspar e Baltazar o exemplo de submissão aos desígnios de Deus e que devem, como os magos, despojar-se de seus bens e depositá-los aos pés dos demais seres humanos, partilhando sua fortuna como dignos despenseiros de Deus.
     Os presentes de Natal também têm esse sentido. São as ofertas dos adultos à criança que com a sua pureza representa Jesus. Alguns, dão a essas festas um sentido mitológico pagão, buscando nas cerimônias dos druidas, dos germânicos ou saturnais romanas a pompa das festas natalinas que culminam com a Epifania.
A Bifana
    A palavra epifania, usada também como nome de mulher, deu origem a uma corruptela dialetal do sul da Itália, levada depois a Portugal e Espanha, a Bifana. A Bifana, segundo a lenda, era uma velha que, no dia de Reis, saía pelas ruas das cidades a entregar presentes aos meninos que tivessem sido bons durante o ano que findara. Estava intimamente ligada às tradições dos povos mediterrâneos e mais próxima do significado litúrgico das festas natalícias. Os presentes eram somente dados no dia 6 de janeiro e nunca antes. Tanto assim é, que nós mesmos, no Brasil, na nossa infância, recebíamos os presentes nesse dia. Depois, com a influência francesa e inglesa em nossas tradições a Epifania ou Bifana foi substituída pelo Papai Noel, a quem muitos estudiosos atribuem uma origem pagã e outros, para disfarçar o sentido comercial da sua presença no dia de Natal, confundem com São Nicolau.
     Hoje, os Santos Reis já não são lembrados. O presépio praticamente não existe e só neles é que podemos ver os Magos de Oriente apresentados. A árvore de Natal, pinheiro que os druidas enfeitavam para agradar o terrível deus do inverno Hell, substituiria a representação do nascimento de Jesus, introduzida no costume dos povos por São Francisco de Assis. A festa da Epifania, dia de guarda no calendário litúrgico, já não mais é respeitada e com ela desaparecerem outras tradições da nossa gente, trazidas da Península Ibérica pelos nossos antepassados, como a folia de Reis, Reisados e tantos outros autos folclóricos, cultuados em poucas regiões do país.

(*) Gimenez, Armando. "Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal". Diário de São Paulo, São Paulo, 5 de janeiro 1958
Especial de Natal - Ano VI - Edição 61 - Dezembro 2003


Oração 
     Senhor Jesus, peço-vos dar-me olhos sensíveis aos sinais que falam de vossa presença Redentora, para que, como os Santos Reis Magos, possa adorar-vos sempre pelo mistério de vossa Encarnação gloriosa. Amém.

Jaculatória: Menino Jesus, nascido em Belém, rogai por nós.